quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Prêmio Kaspar Hauser de Qualquer Coisa 2009

Melhores Filmes: "Bastardos Inglórios", "The Hurt Locker" e "Busca Implacável" ("Taken").
Melhores Shows: AC/DC (no Morumbi) e Heaven&Hell (Nilson Nelson de Hardcore Brasília).
Melhors Bares: Beirute (Asa Norte), Empório (Ipanema), Belmonte (Leblon) e Joaquina (Cobal do Humaitá).
Melhores Restaurantes: Gula Gula (Ipanema) e Aconchego Carioca (Praça da Bandeira).
Melhores Livros: "Easy Riders, Raging Bulls" (de Peter Biskind) e "The Proud Highway" (de Hunter S. Thompson).
Maiores Perdas para a Humanidade: Lux Interior (do The Cramps), Marilyn Chambers (atriz pornô), Clodovil, Lombardi e o Demônio Azulado, vendido por 13.500 mangos.
Melhor Casamento: Dan e Lorena (em maio).
Melhor Aquisição: o ingresso para o show do AC/DC (valeu, Dan!), por 228 mangos.
Melhor História em Quadrinhos: edição original em espanhol do Torpedo (de Bernet e Abulí).
Melhor Viagem: Pitboyland (julho) e São Paulo (novembro).
Melhor Fato Ridículo: qualquer um que envolva um político tupiniquim, especialmente se ele se chama Arruda ou Paulo Otávio.
Melhor Decisão: voltar para Pitboyland e passar a votar nulo.
Melhor Mentira: a morte do Michael Jackson (que virou Latoya Jackson...).
Melhor Momento Justiça Cega: o relacionamento de Marcelo Camelo e Malú Magalhães...
Melhor Fato Bizarro: David Carradine entrando no armário.
Melhor Salgadinho: Esfirra (Bar 20, Ipanema).
Melhor Refeição Consumida Escondida: suco de manga e misto-quente no pão integral, no Natural e Sabor, em Ipanema.
Melhores Frases: "Ôoooo!!!" (Débora); "Tararararararara..." (primeiros versos de "Thunderstruck", por Pierre e Dan, em São Paulo...).

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Let's face It, Brother...


Sem café nesta casa, sou alvo fácil para qualquer Morfeu...


Noite Tal

Pseudoecho definitivamente não era a melhor opção para aquela noite de sexta. The Cult, acompanhado de algumas doses de Stoli, se encarregava do trabalho direitinho, e eu sequer tinha que me preocupar com uma ressaca na manhã seguinte. Meu irmão e sua banda estavam bebendo no Empório. Eu disse que talvez fosse encontrá-los mais tarde, mas acabei ficando em casa. Não queria gastar grana, e duvidava que certas pessoas me ligariam como prometido.
A coisa toda parecia uma daquelas cenas de duelo em filmes de faroeste. De um lado, um Gary Cooper usando Levi’s, Hering e Doc Martens. Do outro, um Jack Palance trajando Ellus da cabeça aos pés. No meio, uma Grace Kelly, mas admito que um engradado de Original já estaria de bom tamanho.
Entre ir ao Empório e permanecer em casa, pouco estava em jogo. Até queria jogar com a sorte e ver se encontraria algum rosto conhecido, mas certamente não queria perder meu tempo com decepções de uma noite regada a chopp. Ficar em casa, entretanto, era o de sempre: som, palavras, álcool em quantidade moderada, possibilidade de filme antigo, Tiparillo, amendoim, (ou Doritos, ou Ruffles...), pensamentos estranhos, e cama ao som de MEC FM. Culpa e arrependimento não estavam no cardápio do dia. Assim, senhoras e senhores, a única coisa que podia ser afirmada com pétrea convicção era o seguinte: Ian Astbury e companhia podiam ter tropeçado como qualquer ser vivo ao longo da carreira, mas ainda cantavam e tocavam para CA-RA-LHO.

Homem-Máquina

Os dois sujeitos chegaram na manhã de uma segunda, quando eu ainda estava de ressaca. Vieram limpar os aparelhos de ar-condicionado e consertar a máquina de lavar. Um era negro e aparentava ter não mais de 50 anos. Seu ajudante era mais jovem, branco, musculoso e caladão. Eles desaparafusaram dois aparelhos e os levaram para a garagem, onde seriam limpos. Então o negro voltou e começou a mexer na máquina de lavar.
Com a cabeça latejando e uma grande vontade de jogar tudo para o alto, eu ofereci café. Ele aceitou, sem tirar a cabeça de dentro do emaranhado de fios da máquina.
Enquanto a cafeteira pipocava, quente, eu tentava lembrar de algo da noite anterior, mas apenas algumas palavras vinham à tona: convite, futebol, banho, transa, mais cerveja, barulho, cigarro, risos e sorrisos, cerveja mais gelada, gargalhadas e caras feias, turbilhão luminoso, temporal sonoro, chave errada, transa número dois, escuro. Na área de serviço, contudo, as frases do negão quarentão eletricista pareciam obedecer a um princípio de ordem ímpar:
"Eu tava louco pra tomar um cafezinho, sabe? Tomar um cafezinho bem quente e com açucar, e depois fumar um cigarro. Ou até dois, sabe?"
Engolido na complexa mecânica da máquina, ele arfava e limpava o suor da testa, limpando o mesmo na camiseta de surfista ou no jeans folgado.
"Tem gente que não gosta. Diz que café faz mal, que cigarro faz mal. Eu gosto dos dois, sabe? Café E cigarro. Gosto mais de café, bem quente e com açucar. Mas também gosto de um cigarrinho, sabe?"
Talvez eu soubesse, mas dificilmente atingiria um nível de paixão e disciplina como o seu. Fiquei olhando para o nada enquanto ele terminava o serviço. ele desceu até a garagem inúmeras vezes para verificar a limpeza do ar-condicionado e, imagino, fumar um cigarro. Eu logo percebi que meu dia estava perdido, e só melhoraria com o pôr-do-sol, momento durante o qual eu decidiria se sairia para beber uma cerveja ou ficaria em casa escrevendo, ouvindo música e assistindo a alguma reprise.

Uma Questão de Tamanho

Somos todos pombos crescidos em uma cidade grande qualquer. Somos pombos crescidos, acrescidos, brancos, negros, pardos e índios. Pombos que nasceram em berço de ouro, berço de maternidade ou nos imigrantes arrotos dos vários nordestes de um país. Nos bicamos, afoitos e ziguezagueando, por entre as cadeiras e lixeiras de uma lanchonete qualquer. Cansados e nervosos, respondemos aos instintos mais vis, baixos e alienantes, vivendo de migalhas e de nós mesmos.
Somos todos pombos crescidos, arfando em silêncio entre uma tempestade e uma comemoração inútil. Ingerimos restos aqui, deglutimos ódio e dúvida acolá.
Somos pombos crescidos, e sem razão.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Modus Operandi: Paella Nocturnis

Quando me olhei no espelho naquela manhã, percebi que estava com a cara do Cat Stevens, ou sei-lá-qual-o-nome-que-o-sujeito-tem-atualmente. Barba grande, óculos de nerd, feições de coitado que oferece a outra face ao invés de revidar. Fui até a cozinha, me servi de café preto e sentei na cama para refletir sobre a noite anterior.
Estava em um ônibus em direção ao Leme. Vi uma banda do exército tocar hinos ufanistas em uma praça de Ipanema enquanto um mendigo dançava alegremente na frente de múmias saudosistas do regime militar. Também vi uma freira ser presa por dois guardas municipais em Copacabana e ser acusada de roubo em uma padaria.
O restaurante, localizado em uma longa rua do Leme, era conhecido por sua comida espanhola e pela qualidade de seus frutos do mar. Os garçons eram atenciosos, mesmo se desvencilhando de tudo e de todos no apertado espaço dos corredores entre as mesas. Eu estava dividindo uma paella com arroz de açafrão com minha ex-esposa, e bebendo meia-garrafa de um vinho tinto decente, quando o casal se acomodou na mesa ao lado. O homem falava espanhol, era alto, ruivo, e devia ter uns 40 ou 50 anos. A moça tinha metade disso, era natural de Niterói, e falava o necessário acompanhado de um leve e tímido sorriso. Ambos vestiam bermudas, e pediram o polvo à Espanhola.
Lá pelas tantas, eu e minha ex-esposa começamos a falar de família, e não demorou muito para que eu começasse a baixar a lenha de sempre na minha: de como faziam as mesmas perguntas, de como se esqueciam dessas mesmas perguntas em menos de uma semana, de como contavam piadas racistas e sem graça, de como enchiam meu saco com essa história de concurso público, estabilidade e aposentadoria garantida. Concluímos que, da próxima vez que fosse convidado para um almoço de família, eu empregaria as mesmas "técnicas" a que sou submetido. Esqueceria o nome dos primos, perguntaria se eles ainda têm a casa em Teresópolis (é claro que têm...), ou se o filho de minha prima ainda estava no maternal (mesmo se ele estivesse com 8 ou 10 anos...).
Logo logo minha família me consideraria um jovem senil, "persona non grata" e provável usuário de drogas alucinógenas pesadas. Daí para não ser mais convidado para almoços em família seria um passo digno de Neil Armstrong.
Era um belo plano.

Baixas o Sarrafo, ô pá...

"Veia de Lutador" ("Fighting" – 2008), de Dito Montiel, é um filme bizarro, que beira, de modo irregular, o belo, o caótico e o débil. Centrada no tema da luta de rua, clandestina e rentável, a trama expõe parcelas da hipocrisia e da coragem nova-iorquinas, mas falha em não desenvolver certos personagens. O jovem Channing Tatum, ex-modelo de cuecas da Calvin Klein, está bem e certamente não é "mais um ator sexy com um rostinho bonito". Outros protagonistas, entretanto, parecem tímidos, tais como Terrence Howard, Zulay Henao e o excelente Luis Guzmán; o que só aumenta a impressão de que o filme termina rápido demais, com inúmeras questões mal resolvidas.
Apesar de lembrar o filme "Lutador de Rua" (com Charles Bronson e James Coburn), "Veia de Lutador" "destoa" no sentido de cambalear entre um drama à la Sessão da Tarde (mal desenvolvido...) e uma fábula asfaltada (muito mal desenvolvida...). Vale pelos socos.